Até que a morte nos ampare - Marcos Martinz - Tomo Literário

Até que a morte nos ampare - Marcos Martinz

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Uma noiva fica presa no dia de seu casamento. Presa não no sentido de cárcere, mas num looping temporal de algo que a faz reviver o dia em que aconteceria o seu casório. Tudo estava preparado para a cerimônia e Rosinha se arrumava para ir à capela da cidade. No entanto, o casamento não acontece. O motivo? A noiva estava morta.

Em "Até que a morte nos ampare", livro do escritor Marcos Martinz, publicado pela Skull Editora em 2018 (1ª edição, 90 páginas) adentramos uma trama curiosa que fala sobre a morte da protagonista.

O autor usa do recurso de metalinguagem quando ele também se torna um personagem da própria história. Dona Morte o visita e costuma levá-lo para ouvir histórias contadas por gente que partiu. Num desses encontros inusitados, em que a Morte o conduz para passear enquanto dorme, Marcos é levado à presença de Rosinha. É ela quem passa a contar ao autor a história do fatídico dia em que morreu. Ela entra em detalhes sobre o evento com o propósito de que Marcos transcreva a história e a publique no mundo dos vivos.

Em outro plano, Rosinha tem de descobrir quem provocou a sua morte para que possa se livrar da condição de reviver repetidas e intermináveis vezes o dia no qual seria celebrado o seu casamento e que se tornou a data da ocorrência de sua morte. Eis aqui um elemento de mistério que vai se desnudando para o leitor com o avançar da trama.

A narrativa nos leva por uma história que mescla sobrenaturalidade, humor, terror, fantasia, religiosidade e que aborda temas contundentes, como a depressão, utilizando-se de recursos lúdicos - como a figura da noiva que tem metade da fisionomia em estado cadavérico e a presença da Dona Morte - uma personagem que se mostra cômica, jocosa e com comportamentos engraçados. Quando nos referimos a religiosidade presente na obra não significa que ela siga uma religião, trata-se apenas de conceitos utilizados na história e que tem ligação com o significado de alguns elementos para determinados personagens.

Apesar da leveza do livro, o que o autor conseguiu desenvolver muito bem, temos assuntos que são abordados e que nos levam a reflexão. Alguns temas são tratados de maneira explícita e outros surgem metaforicamente na história. A obra é uma alegoria que usa de figuras que evocam questões ligadas à nossa cultura. Da história parte-se para refletir sobre depressão, livre-arbítrio, consequências das nossas ações, religiosidade, culpa e até o significado da morte.

"Era uma tristeza diferente de todas as outras tristezas, vinha de dentro da alma, passava para o peito e desabava dos olhos. Muitas vezes um sentimento deprimente me visitava, derrubava, demonstrava e depois sem alarde, abandonava-me."


Em 2016, no Brasil, mais de 75 mil pessoas foram afastadas do trabalho diagnosticadas como depressão. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) até o ano de 2020 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. A depressão é coisa séria e a doença deveria ganhar prioridade em políticas governamentais. Em "Até que a morte nos ampare" temos o assunto tratado na história, o que possibilita com que jovens e adultos discutam o tema e avaliem as consequências da referida doença. 

Numa história que consegue cruzar assuntos fortes com muito humor e leveza, somos levado a conhecer profundamente a história de Rosinha, da tragédia que se revela em sua vida e da busca que ela faz para livrar-se da maldição de reviver o fatídico em que morreu.

Vários são as referências o leitor pode depreender da história criada por Marcos Martinz. Em certos aspectos a personagem se assemelha à Noiva Cadáver, do filme dirigido por Tim Burton, em uma das cenas retratadas temos uma referência ao Auto da Compadecida, obra de Ariano Suassuna, em que vemos um julgamento que conta com a presença do Sr. Tempo, Dona Morte e do Diabo. Os personagens do livro são bem construídos os que nos faz perceber detalhes como o modo de falar, a maneira como se referem uns aos outros e as suas próprias ações.

O livro tem uma narrativa fluída e a consegue atingir em cheio o público-alvo. A obra do autor foi adotada pelas escolas da cidade litorânea de Mongaguá (São Paulo) e tem sido lido por muitos jovens.

Interessante o leitor observar as questões metafóricas. O fato de Rosinha reviver a sua própria morte pode ser encarado como uma nova oportunidade de construir uma nova vida. Não é assim que acontece com nós? Não temos, diante dos problemas que surgem, que nos reinventar para que as coisas sigam  um caminho diferente?

Se observarmos o fato de que ela recebe uma terrível notícia e que isso é que possibilita com que ela saia do limbo de reviver sua morte, não é assim também conosco? Não é somente quando encaramos os prolemas de frentes que podemos seguir adiante? Do contrário, não nos parece que o problema nos persegue?

Até que a morte nos ampare é um bom livro, daqueles que conseguem mesclar uma boa história com assuntos relevantes e que nos faz refletir sobre os temas tratados na obra de forma lúdica. Trata-se de um livro curto, de leitura rápida, mas que nos faz questionar uma série de coisas que vivemos no cotidiano, seja isoladamente ou na convivência social.

Marcos Martinz | Foto: Reprodução

Sobre o autor:

Marcos Martinz é diretor teatral, ator e agora escritor. Ele é o esquisitão que fala com espíritos e todos acham normal. Gente de teatro é maluca mesmo. Nasceu em Mogi das Cruzes e escreve roteiros, livros e toma três cafés por vez. Ao contrário de outros jovens, optou por escrever, estudar e atuar, em vez de ir para baladas. Mora na Praia Grande, litoral sul de São Paulo, onde trabalha com sua companhia de Teatro Bonecos Teatrais.

Ficha Técnica:

Título: Até que a morte nos ampare
Escritor: Marcos Martinz
Editora: Skull
Edição: 1ª
Ano: 2018
Número de Páginas: 90
Assunto: Literatura brasileira

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