As Horas Selvagens - Breno Torres - Tomo Literário

Post Top Ad


Um quarto de motel pode ser muito mais do que apenas um cômodo destinado a encontros de prazer nos quais as pessoas se acomodam. Nesse ambiente, que abre possibilidades para uma intimidade necessária, as pessoas que nele estão não deixam de ser quem são. Ainda que haja a necessidade de interpretar um papel social (naquele ambiente), os pensamentos, a história pregressa, os sentimentos e emoções são de quem ali está. Elas carregam consigo a bagagem da vida.

Com esses elementos transbordando é que vamos nos deparar com personagens vívidos e ricos no livro As Horas Selvagens, do escritor Breno Torres, publicado pela Monomito Editorial em 2018. Nosso ponto de partida nas histórias dos personagens que preenchem as páginas do livro começa na recepção do motel.

Um casal de homens está num dos quartos do motel. Um teve relacionamentos com mulheres e o outro ansiava pelo amor, pela consumação de uma vida juntos, mas sabendo a vida que o outro tinha. O anseio pela convivência, pela união, pelo enfrentamento das amarras sociais, vai para além do que é realizado naquele recinto.

Mas nem só aqueles que utilizam o quarto para o sexo revelam-se ao leitor. Depois de utilizarem um cômodo do motel, na faxina necessária que é executada, uma funcionária do estabelecimento, arrumando a bagunça, limpando as secreções que deixam marcas, lembra-se de outras marcas, as marcas de sua vida. Ela, mulher que  queria apenas viver do seu jeito, pensa sobre os tormentos pelos quais passou. Abuso, morte, abordo passam pela sua cabeça. A contraposição do que as marcas de prazer de outrem refletiram em sua alma.

No entanto, nos quartos não há somente dores e lamentos que advém de questões que afetam a história atual advindas da história pretérita. Há a dor física da prática sexual como se revela no quarto cômodo que visitamos na obra. Espiamos um casal em sua intimidade, num jogo literal em busca do prazer.

Da cena de sexo com ares agressivos, passamos a conhecer a história da travesti que viveu preconceitos e que sabe a dor - tanto física quanto psicológica -  de ser agredida. Dos sonhos que tinha, da esperança de uma vida "normal" (grifo meu) ao trabalho na prostituição - uma chance que surge para se reerguer, somos conduzido pelo seu universo que surge com sua estadia nas horas selvagens dentro daquele quarto. O autor nos lança, com a construção da história, uma série de questionamentos que nos faz pensar sobre como a sociedade encara a comunidade LGBTQ+.

Em outro quarto se revela a perda da virgindade mas não de modo romantizado. Há ali a percepção da inabilidade, a grosseria do parceiro já experimentado e que deseja apenas se satisfazer, a distância do amor idealizado.


Que histórias carregam esses personagens que estão nos quartos? Que sentimentos os marcaram? Que anseios eles tinham? Continuam com o mesmo pesamento de antes? Como vivem essas horas selvagens? Os personagens de Breno Torres surgem como pessoas comuns, com vidas diferentes, com percepções de mundo dispares, isolados em sua passagem pelo quarto do motel, mas vivendo o mesmo tempo. A estrutura física do motel, do estabelecimento que os recebe, torna-se o meio com que eles se unem. O espaço físico e o sons gerados pelos gritos, gemidos, passos no corredor, criam uma ligação (ainda que momentânea) e fazem-nos perceber de que no mundo não estão sozinhos. 

"Aqueles donos de motéis, pensava, hotéis, albergues... eles não sonhavam, certamente, com metade daquilo que acontecia naqueles quartos de quinta. Havia vida naqueles lugares - real, visceral, palpitante vida. As pessoas vinham ali viver seus momentos de desejo, prazer, realização descanso. Momentos como esse podem fazer uma existência toda valer a pena."

Dor, abuso, horror, melancolia, sentimentos miseráveis que levam aquele lugar o ar de marginalidade, que é rompido pela humanidade. Há ali prazer, redescobertas, revelações, desejos, conquistas, sonhos, reafirmação da existência. Celinha tem encontro consigo no quarto do motel com um livro em mãos, fazendo uma leitura erótica e relembrando alguém que lhe deu prazer, juntando-se ao prazer a que entrega-se na solidão do cômodo.

A narrativa de Breno Torres é tocante e há nas histórias uma trama que transcende a presença dos personagens nos quartos. Eles se desnudam para além da ação que tem dentro dos cômodos do estabelecimento. E esse desnudar-se os tornam demasiadamente humanos, sem romantização e sem mascarar as suas histórias pregressas. Eles ficam, metafórica e literalmente, nus diante do leitor.

E o que falar de um casal que celebra a derrocada da relação num quarto de motel? A cumplicidade da amizade, no entanto, se fortalece. Outro casal estava no quarto ao lado. Ela poderosa, dona de si, decidida, forte. Ele um covarde a mascarar sua força e deixando revelar o seu machismo truculento. A caça virou caçador.

Os personagens criados pelo autor são peculiares, singulares, mas bastante representativos. Neles há um microcosmo da sociedade. Aquele hotel ganha dimensão de mundo com suas representações, com as forças e fraquezas de gente comum. Desses mesmos quartos surgem temas contundentes que precisam ser discutidos, que são vividos na sociedade, que ecoam como uma voz que pede para ser ouvida em sua vida cotidiana. Fala-se sobre abuso, sobre traição, sobre desejo sexual, sobre empoderamento feminino, sobre liberdade, sobre individualidade, sobre preconceito, sobre necessidade de desvencilhar-se dos obstáculos sociais.

E não esqueçamos a turma que chega ao quarto vinte e nove espalhando amor, perdão e alegria. Uma história que nos faz rir, que toca-nos com a união (amor) e com a vontade de mostrar o lado bom a quem quer que seja (o perdão). O grupo ali reunido traz uma história divertida e até inspiradora.

Tantas são as histórias de vidas desses personagens que parecem nublados e revelam-se límpidos. O desfecho do livro, bem tecido, chega para abalar, para nos emocionar, não fosse suficiente a emoção que carregamos por todas as histórias que no são contadas, na medida em que avançamos quarto a quarto. É uma trama contada  em capítulos que se assemelham a contos e que tem uma ligação tênue que as une e dá a unicidade da publicação.

As Horas Selvagens é indescritível, é um livro que nos dá uma série de sensações: é uma porrada, um abraço, um grito, um afago, é a mescla da simplicidade com a profundidade da vivência humana. É uma demonstração contra a intolerância, contra a desumanidade. Uma demonstração a favor da humanização, da diversidade da vida.

Sobre o autor:

Breno Torres | Foto: Elias Costa

Breno Torres é formado em Letras pela Universidade Federal do Pará, foi o primeiro autor LGBTQ+ a publicar um livro de Terror em Belém do Pará. Professor premiado, seu livro Pesadelos Infaustos foi destaque na cena literária paraense, tornando-o conhecido pelo trabalho com representatividades em suas obras.

Ficha Técnica:

Título: As Horas Selvagens
Escritor: Breno Torres
Editora: Monomito Editorial
Edição: 1ª
Ano: 218
Número de Páginas: 188
ISBN: 978-85-907522-1-9
Assunto: Literatura brasileira


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui seu comentário.

Post Bottom Ad

Pages