Ai de ti, Copacabana! – Rubem Braga - Tomo Literário

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Ai de ti, Copacabana! – Rubem Braga

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Ai de ti, Copacabana!, livro de Rubem Braga, foi publicado pela Global Editora em 2019 (32ª edição). A publicação tem 172 páginas.

As primeiras crônicas de Ai de ti, Copacabana! estão ambientadas no Chile, onde o autor narra sobre sua casa, as pessoas, as paisagens. Ele foi diretor do Escritório Comercial do Brasil, órgão do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Depois temos as crônicas que foram escritas no Brasil, seu país de origem, exceto uma, que foi escrita em Nova York (Minha Morte em Nova York – escrita em abril de 1959).

Nos textos de Rubem Braga vamos embarcando em histórias e personagens que se diferem, mas que recebem sempre o mesmo olhar arguto do cronista, que fala sobre relacionamentos, sobre a primeira mulher do Nunes, sobre a mulher que espera o homem (como em tantos contos, romances, filmes), sobre fatos e acontecimentos que recebem agora a interpretação do autor.

Passam pelas histórias a mulher com quem lê um poema, o significado da casa, santos como São Cosme e São Damião. Em cada um dos textos, apesar de curtos, temos alguma reflexão que paira no ar para quem lê ou nos atinge em cheio. Que seja a identificação com os sentimentos dos personagens que figuram no livro, que seja em relação aos acontecimentos ou que seja por meio de uma frase do autor que nos lança uma palavra certeira, há sobre o que pensar e analisar.

As crônicas da presente edição foram escritas no período de abril de 1955 até fevereiro de 1960, período este em que Rubem Braga publicara suas crônicas em jornais como Correio da Manhã, Diário de Notícias e O Globo. No mesmo período o autor também fez mudanças das revistas para as quais escrevia. Saiu da Manchete e foi para o Mundo Ilustrado e depois retornou à primeira. Logo na nota da obra temos a informação de que os textos estão presentes no livro em ordem cronológica e que a seleção foi feita pelo próprio Rubem Braga.

Coisas antigas, como um guarda-chuva ganham protagonismo numa crônica. E os mortos? Eles também aparecem. "O pior dos mortos é que nunca telefonam. Aparecem sem avisar, sentam-se numa poltrona e começam a falar. Tocam ema assuntos que já deviam estar esquecidos, e fazem perguntas demais. Subitamente fazem silêncio. Esse silêncio é constrangedor..."

Ai de ti, Copacabana! é a crônica que dá título ao livro da Global Editora. Trata-se de um texto com vinte e dois itens que falam sobre Copacabana. Resta por óbvio.

Em outro texto o autor fala sobre um apartamento em que morou na França, o mesmo em que teria morado Marcel Proust - aquele de Um Amor Para Swan. Até um construtor chamado de Sr. Bezerra ganha uma crônica. Seria de fato uma homenagem àquele que passará "à história como um emérito construtor de buracos, titulo a que vários estadistas nossos fazem jus"?

A crítica à burocracia surge de maneira bem humorada na não aceitação de um político que nega a morte do outro  (rechaçando os fatos) e exigindo a certidão de óbito. De lá pra cá, muita coisa não mudou nas repartições, tampouco na mente de muitas pessoas que direcionam os trabalhos que requerem o uso de documentações e mais documentações, ou que fazem normas (sempre a criar um percalço para que o objetivo não seja alcançado).

Em outubro de 1958 Rubem escreveu sobre uma entrevista realizada com Machado de Assis, cinquenta anos após sua morte, e cujas respostas às questões feitas, trazem trechos de obras que o autor produziu.


A crônica “O Pavão”, a mais curta do livro, fala sobre o animal, a pigmentação de sua calda, a constatação sobre o “luxo do artista” e o amor. Com poucos elementos ele consegue nos dar uma visão ampla sobre os temas a que trata. O sabor das crônicas vem disso, de associações e interpretações sobre fatos, pessoas, coisas que vão se lançando na visão do autor e que, de um modo ou outro, nos tocam. E Rubem Braga sabe bem fazer isso. Não é a toa que ele é considerado o maior expoente da crônica no Brasil.

As lembranças que vem dos trovões de outros tempos, um corrupião, um tuim na casa do joão-de-barro, um gavião, uma tartaruga pescada e devolvida ao mar ou uma viúva que vai à praia se apresentam também nas observações feitas pelo cronista.

“Até que tenho reclamado muito isto e aquilo. Mas se eu for ficar rezingando todo dia, estou roubado: quem é que vai aguentar me ler?” – diz Braga em A Nuvem.

Textos surgem também sobre o quarto de moça, uma outra noite, uma conversa com uma mulher que para no agradecimento a Deus ou ao Diabo, a visita de uma senhora, uma pescaria e tantos outros assuntos.

Como escritor, cronista, jornalista, fala de sua matéria-prima: a palavra. “Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém”.

Rubem conversa com seu leitor, como é o caso de “Nascer no Cairo, Ser Fêmea de Cupim”. Em outros textos temos essa quebra da barreira. Das palavras que compõe a história que ele conta, salta uma afirmação ou uma questão, direta e certeira para o leitor, uma provocação que nos faz refletir.

O que gosto de Rubem Braga é seu humor e o modo que ele tem de contar histórias. Um jeito peculiar, próprio, diria que natural, o que muito nos aproxima de sua obra. Já li crônicas soltas de Rubem, fragmentos de outros textos e livros completos e Ai de Ti, Copacabana! é um ótimo livro de crônicas.

Uma tarde de sol, um tempo chuvoso, uma noite calma ou não, uma madrugada em que o sono não vem... pegue o livro e divirta-se! Ler os textos de Rubem Braga nos faz bem.

Sobre o autor:

Rubem Braga | Foto: Reprodução

Rubem Braga nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, ES, em 1913. Ainda estudante, iniciou-se no jornalismo fazendo uma crônica diária no jornal Diário da Tarde. Como repórter, trabalhou na cobertura da Revolução Constitucionalista de 1932 para os Diários Associados. Mesmo depois de formado em Direito, continuou com o jornalismo, escrevendo crônicas para O Jornal. Mudou-se para Recife, PE, e passou a escrever para o Diário de Pernambuco. Fundou, no Rio, o jornal Folha do Povo, tomando partido da ANL (Aliança Nacional Libertadora). Em 1936, lançou seu primeiro livro de crônicas, O Conde e o Passarinho. Em 1938, fundou, junto com Samuel Wainer e Azevedo Amaral, a revista Diretrizes. Foi correspondente de guerra na Europa durante a Segunda Guerra Mundial pelo Diário Carioca, tendo tomado parte da campanha da FEB (Força Expedicionária Brasileira) na Itália, em 1945. No período de 1961 a 1963, foi embaixador do Brasil no Marrocos. Em 1960, publicou Ai de Ti Copacabana, seguindo-se A Traição das Elegantes (1967), Recado de Primavera (1984) e As Boas Coisas da Vida(1988), entre outros livros. Escreveu crônicas para os jornais Folha da Tarde, Folha da Manhã e Folha de São Paulo entre 1946 e 1961, e colaborou, nos anos 1980, com o caderno cultural Folhetim, da Folha de São Paulo. Morreu no Rio de Janeiro, em 1990, deixando mais de 15 mil crônicas escritas em mais de 62 anos de jornalismo. Suas crônicas estão publicadas em diversos livros de coletâneas, entre eles,Crônicas do Espírito Santo, Coisas Simples do Cotidiano, Crônicas da Guerra na Itália e O Lavrador de Ipanema: Crônicas de Amor à Natureza.

Ficha Técnica:

Título: Ai de Ti, Copacabana!
Escritor: Rubem Braga
Editora: Global
Edição: 32ª
Ano: 2019
Número de páginas: 172
ISBN: 978-85-260-2417-5
Assunto: Crônicas



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