Epícuro em meu jardim - Marcos Welinton Freitas



“A busca é sempre um mistério. No seu cerne repousa a insígnia da insegurança e da incerteza, nunca sabemos se aquilo que queremos será conquistado no decorrer de nossas vidas.”

Poesia e sexo podem fazer com que ela se sinta viva. Depois de uma perda, a perda de um amor, ela busca se conectar com o seu eu, com a sua essência, com a sua forma de expressar-se pelos poemas. O prazer está no centro dos dois modos que a salvam, ou melhor, que resgatam aquela mulher, a personagem central do livro.

A poesia, depois da morte de seu amado, havia se distanciado. O prazer pelo sexo, pela junção dos corpos, fazia-a reencontrar a profunda vontade de escrever. Um ciclo que para ela pode-se dizer virtuoso. Hedonê, esse era o nome com que se apresentava, antes de lançar-se ao lascivo encontro de peles. Hedonê, “a personificação do prazer e da luxúria”. A personagem é, ainda, uma mulher que se lança ao gozo, mas que carrega a melancolia e se compraz com sua reflexão, com a introspecção que surge a partir dos seus atos.

“A poesia deveria vir até mim, como num ímpeto. Devir vir inominada, como no gozo. Apenas o estado em que o corpo se concentra em um único sentido, o tato. Mas a poesia vem até mim dilacerando toda a minha estrutura. Costura-se em minhas artérias e vaza pelos meus olhos, pela minha boca, pelos meus dedos. Todos os sentidos se perdem e se reencontram. A poesia me torna, me assalta, antecede o meu desejo. Eu só tenho desejo no poema.”

Em Hedonê está a dualidade de sentimentos, de um mesmo e diferente sentimento, do amor que tem pelo amado que partiu e da aproximação de um novo que chega (Eros), ainda que tal amor pareça em certo momento ser apenas o do laço carnal. Que seja! Aquele amor que partira ainda deixa resquícios de uma luta interna que ela trava consigo e que Hedonê precisa compreender para se refazer e seguir adiante.

“O erro do homem é tentar sobreviver às suas dores, quando na verdade o seu dever é viver.”

A sua luta íntima é a luta de quem contesta em ter que seguir tudo que há de pré-concebido na sociedade. Hedonê se entregará efetivamente a um novo amor? Conseguirá superar a dor que ressoa em seu coração? O novo que desperta a poesia é o novo que desperta o sentimento mais profundo?

O livro apresenta as inquietações narradas em primeira pessoa, portanto pela própria voz de Hedonê, que poeticamente se revela ao leitor. Não, não é um livro de poesias, mas na prosa do autor há lirismo. A personagem se entrega sem amarras, sem medo de deixar revelar o que poderia ser camuflado. Esse é o modo que ela encontra de curar o sofrimento, o arrombo deixado por quem partiu, de se desvencilhar dos impeditivos que os outros podem querer imputar a ela, ainda que haja a reflexão sobre os atos.

“Andei naquele dia pelas ruas da cidade, feliz, arrependida e incompreendida por mim mesmo. Uma grande tempestade nascia na minha alma, eu estava chegando perto da minha própria completude, mas a minha culpa insinuava a minha falha, e eu não sabia o que fazer.”


A poesia a que me refiro e que está presente no texto revela a forma com que a personagem lida com seus sentimentos e que se reveste em suas poesias. Há ainda citações a Hilda Hilst e Lya Luft, mulheres que tem poemas com carga de voz feminina, como Hedonê. E também são citados outros grandes autores, como Charles Baudelaire e Carlos Drummond de Andrade.

O jardim é para a poetisa o seu calabouço. Nele ela “derrama” e “enterra” suas dores, de modo físico ou metafórico. Através do jardim ela se separa de tudo que a poderia prender e deixa de lado a dor. E ao abandonar a dor faz com que haja abertura de espaço para o novo, para a renovação que ela tanto busca. O relato que ela faz ao leitor é ainda a sua libertação dos incômodos que a cercam.

O autor construiu uma bela personagem e uma rica história. Hedonê consegue se revelar em sentimentos que estão no recôndito de seu coração, mas ainda assim se mantém misteriosa, posto que não revela seu nome real.

Epícuro em Meu Jardim, de Marcos Welinton Freitas, foi publicado pela Editora Multifoco em 2016 (108 páginas) e é um livro que traz o prazer para a cena, não é a toa que a personagem que narra chama-se Hedonê e que suas revelações ao leitor incluem o erotismo. É um livro que também pode ser sentido, encarado com despudor e trazer reflexões sobre o eu de cada um. O desejo e o mistério residem nessa mulher que convida o leitor a desnudar suas aventuras em busca dos corpos, do prazer e do afastamento da dor da perda do seu amor e da sua poesia, num reencontro que ela faz consigo.

De um lado o nome Epicuro evoca a procura dos prazeres para atingir tranquilidade e libertação do medo. Há que se observar, contudo, que o prazer exacerbado pode ser também a origem de perturbações, o que levaria à dificuldade de encontrar a felicidade em manter corpo e serenidade do espírito. Hedonê pode ser identificada como a deusa do prazer. Eros, na mitologia grega, é o deus do amor. Os nomes dos personagens e do título do livro alude claramente ao centro de sua construção, o prazer. 

Sendo assim, não há como não dizer para o leitor se entregar a leitura e a jornada da narradora. Lance-se ao prazer. Ao prazer da leitura, ao prazer do belo texto do autor, ao prazer provocado pela personagem.

Foto: Reprodução
Sobre o autor

Marcos Welinton Freitas é baiano de Bravo/Serra Preta. Escritor, poeta e contista é graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Participou da antologia de contos eróticos Ponto G (Multifoco – 2013), publicou o livro Poesia Proibida (Multifoco – 2012) e Badalos do Século XXI (Editora Penalux – 2013). Tem participação na revista online Mallamargens, 2014. Apaixonado por Clarice Lispector e Virgínia Wolf, Marcos mantém um extenso diálogo com as obras das autoras e sua paixão pela sondagem psicológica.

Ficha Técnica

Título: Epícuro em Meu Jardim
Escritor: Marcos Welinton Freitas
Editora: Multifoco
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-9612-061-7
Número de Páginas: 108
Ano: 2016
Assunto: Literatura brasileira

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