Primatas da Park Avenue - Wednesday Martin



“Primatas da Park Avenue”, de Wednesday Martin foi publicado pela Editora Intrínseca em 2015, com tradução de Lourdes Sette. O livro é narrado em primeira pessoa, pois apresenta a experiência da própria autora. 

“Este livro é uma história mais estranha do que qualquer ficção, resultado do que descobri quando transformei minha vida em uma experiência acadêmica para estudar a maternidade em Manhattan.” 

A família de Wednesday Martin se muda para o Upper East Side após o atentado de 11 de setembro, em busca de uma vida mais tranquila, em que haja parque para o filho, uma vizinhança familiar, escola pública de excelência e ainda, proximidade com outros membros da família. 

Tomando contato com essa nova localidade e seus moradores, a autora fascinara-se pelo universo e o modo de vida das mães do Upper East Side. Como ela explana na introdução, foi impelida a usar seus conhecimentos em antropologia e primatologia para compor um estudo analítico em relação ao novo grupo social do qual fazia parte, mais especificamente, ao grupo de mães. Sentia-se obrigada a compreender esse mundo, estudá-lo e decifrar o código cultural. Num ambiente e atmosfera de luxo notou a peculiaridade da infância nesse lugar com centenas de atividades voltadas para as crianças e como essas mulheres tinham uma conduta e símbolos próprios. 

“... elas eram mães amorosas, mas também chefes de dinastias empreendedoras, determinadas a serem bem-sucedidas e, portanto, a terem filhos bem sucedidos.” 

Nos capítulos que seguem a introdução Wednesday trata de certos ritos sociais que elas tem, como a procura de uma casa, a aceitação do grupo de moradores, a busca pela escola do filho, a aceitação do grupo de mães dos alunos dessa escola. Observa-se que há sempre a necessidade de aceitação dos membros do grupo, como se fosse uma forma de controle daquilo que elas determinam qualidades necessárias para pertencer ao meio. 

A busca por uma bolsa de uma determinada marca vira também um rito de passagem. Ter aquele objeto é como se tornar membro do grupo, mesmo que a bolsa custe “o equivalente a três mensalidades de uma escola particular ou a férias de inverno em um lugar quente”. Nesse momento, é quando aquela que faz a análise e pesquisa o grupo se envolve com o grupo pesquisado. O distanciamento que é necessário para uma análise antropológica acaba se rompendo. 

As vestimentas, os acessórios utilizados definem também o grupo. A aparência e os cuidados para com ela expressam o status dessas mulheres. Como diz a autora: “as mulheres da tribo que eu estudava pagavam um preço alto pela beleza, parecendo paralisadas, desconectadas, famintas e com o corpo exercitado até a prostração.” Aos homens, os maridos, cabem o pagamento da  conta. 

Essa alusão ao papel do homem e da mulher, nesse grupo social, traz o apontamento de que há certo distanciamento entre o casal. Algumas reuniões, inclusive, são voltadas apenas para o grupo de mulheres. O homem exerce poder garantindo a elas o acesso aos recursos (financeiros, materiais, humanos). 

A autora questiona até que ponto se deve ir para fazer parte de um grupo. Viu suas concepções serem alteradas com a interação com as outras mulheres do Upper East Side. Sucumbiu ao desejo de se integrar, ser aceita, fazer amizade e ter o seu filho acolhido. 

Num momento trágico vivido por Wednesday ela recebe a atenção dessas mulheres que outrora a desprezaram, olharam com superioridade e impunham a ela seus códigos de aceitação. 

“Primatas da Park Avenue” traz uma irônica visão sobre um universo fechado e em que o dinheiro, o status e a aparência imperam. Não fosse pela maneira descontraída de associar o grupo com primatas e fazer a co-relação com uma análise antropológica, o livro se tornaria a simples narrativa de exaltação de uma pessoa que não é aceita por um grupo de mulheres ricas e esnobes. Seria somente a validação de um grupo abastado, que tem na imagem e no dinheiro sua forte ligação e a união de laços. 

A abordagem do livro é interessante, sobretudo pela maneira como aborda a antropologia e a primatologia. Esse recurso utilizado pela autora para contar a sua própria história, dá aos leitores uma nuance com certo humor, apesar de alguns adjetivos depreciativos que são usados para designar o grupo analisado. No mais, a leitura servirá para passar o tempo. Em algum momento do livro, mais precisamente quando a autora passa a querer ser aceita pelo grupo, o livro muda seu foco, no sentido de que vira mais a própria história da autora e sua visão sobre o grupo do qual agora ela faz parte, do que a análise de um grupo que havia, inicialmente, despertado sua atenção pelo comportamento.

Foto: Elena Seibert
Sobre a autora 

Wednesday Martin, ph.D., lecionou estudos culturais em Yale, onde concluiu o doutorado em literatura comparada e estudos culturais com foco em antropologia e em história da psicanálise. Atua há mais de vinte anos como escritora e pesquisadora social na cidade de Nova York. É colaboradora da edição virtual da revista Psychology Today e tem artigos publicados em veículos como The New York Times, Cosmopolitan e Glamour. Foi colunista da área de maternidade e estilo de vida do New York Post e colaborou com o Daily Telegraph. Wednesday mora em nova York com marido e filhos. 

Ficha Técnica 
Título: Primatas da Park Avenue 
Escritor: Wednesday Martin 
Editora: Intrínseca 
Edição: 1ª 
ISBN: 978-85-8057-848-5 
Número de Páginas: 272 
Ano: 2015 
Assunto: Antropologia social

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