O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote de La Mancha - Miguel de Cervantes Saavedra



O segundo tomo da obra sobre o Cavaleiro da Triste Figura, de Miguel de Cervantes Saavedra, recebeu o nome de "O engenhoso cavaleiro Dom Quixote de La Mancha". A edição que li trata-se da publicação de bolso, com texto integral, feita pela Editora 34 e lançada em 2013 (2ª edição). O livro conta com tradução e notas de Sérgio Molina e apresentação de Maria Augusta da Costa Vieira.

Foi em 1613, oito anos após o lançamento do primeiro livro de Dom Quixote, que o autor manifestou intenção em dar continuidade da história do cavaleiro e seu escudeiro. A informação fez com que um autor, identificado como Alonso Fernández de Avellaneda, fizesse uma segunda parte do livro. Os especialistas chamam de "Quixote apócrifo". Naquela época era comum autores se valerem de histórias de outros.  De certo que tal publicação não agradou Cervantes que se viu denegrido e, eis que o fato gerou conflito entre os dois autores. Provocações ressoam na obra como uma crítica feita aquele autor.

Apesar do tempo de publicação entre o tomo I e II de Dom Quixote, na segunda parte a história decorre a menos de um mês após o desfecho da primeira. Nesse volume o cavaleiro Dom Quixote e seu escudeiro Sancho Pança, ao contrário do que ocorria na outra etapa, saem em cavalaria com objetivos definidos. Traçam uma rota pelos locais que pretendem explorar. 

Outra diferença que há de ser notada é que Dom Quixote está muito mais presente em locais fechados (palácio, castelo, estalagem) do que em campo aberto, além de exercer um papel maior de orador e conselheiro. Antes o cavaleiro aparecia mais por suas aventuras e desventuras. Notadamente também há mudanças em Sancho que vai se revelando mais eloquente, mais dono de si, de certo modo mais sábio em relação a cavalaria e as questões da vida, ainda que não seja letrado. Em alguns pontos ele assume o protagonismo da narrativa, tomando pra si a condução da história. 

Dulcineia, a musa do cavaleiro, antes uma mulher "imaginária", ganha corpo (ainda que seja sobre os efeitos de encantamentos como crê Quixote). Ainda sobre o segundo volume, diz Maria Augusta na apresentação: "Aos poucos também o dinheiro passa a ocupar lugar de destaque, sendo mediador de algumas relações humanas, inclusive a dos dois protagonistas..." 

Cervantes usa do artifício de abordar a existência de uma obra que fala sobre Quixote dentro do seu próprio livro. E o personagem chega a comentar sobre essa falsa história que circula sobre ele, criando um jogo interessante para o leitor. Abre-se um diálogo entre os personagens, fatos reais e o chamamento do leitor a participar desse imbróglio. 

“... que não foi sábio o autor de minha história, senão algum ignorante falador que às tontas e sem nenhum discurso se pôs a escrevê-la, não importando o que saísse...” (Trecho de fala de Dom Quixote em diálogo com Sancho e o bacharel).

O livro traz no início três aprovações preliminares de parecer censório que eram redigidos a mando do Conselho Geral da Inquisição. Vale lembrar que a publicação original ocorreu no século XVII (1615), um ano antes da morte de Cervantes. 

Dom Quixote continua sua andante cavalaria. No caminho traçado em busca de aventuras vai a gruta encantada de Montesinos, conhece o Duque e a Duquesa que os hospeda, passa por Saragoça, participa de contações sobre grandes feitos e se vê as voltas com a materialização de Dulcineia d'El Toboso, sua musa inspiradora, ainda que como dito anteriormente, seja sobre efeito de encantamentos. 

Foto: Dom Quixote, de Ferracioli


A loucura  do protagonista de encarar o mundo como um grande teatro o coloca em enrascadas e desperta a atenção dos outros personagens com que contracena. Ao passo que, mesmo diante dessa loucura, é capaz de reconhecer e criticar uma falsa história que circula sobre sua pessoa e de verbalizar ações memoráveis.

Com Sancho ele negocia, debate, se contrapõe e se unem em situações variadas. Dá muitos conselhos ao escudeiro, sobretudo sobre a liderança de um governo, posto que Sancho Pança tem o intento de liderar uma ínsula (promessa de Quixote desde a primeira parte da obra).

Na aventura encontra outros Cavaleiros, é ludibriado com farsas sobre alguns acontecimentos, trava desafios para salvar uma duenha (uma governanta de moças), lida com questões amorosas por uma certa mulher, passa por situações inusitadas e das mais variadas. Para ele os encantamentos é que o fazem passar por várias desventuras.

“Há encantos que valham contra a verdadeira valentia? Bem poderão os encantadores tirar-me a ventura, mas o esforço e o ânimo, será impossível.” 

Entre desafios, batalhas, descobertas sobre a cavalaria e a relação constituída com outros personagens, Dom Quixote de La Mancha e Sancho Pança continuam a encantar o leitor. Uma bela dupla de personalidades que, com suas diferenças (físicas, psicológicas e sociais) se complementam.

Dom Quixote chega a ser desafiado para que largue a cavalaria e em dado momento lhe resta voltar a sua casa, ao seu local de origem.

Cervantes, sem dúvida, foi brilhante na constituição de sua obra. Tanto no que versa sobre o primeiro volume quanto no segundo.  O lapso temporal entre o lançamento de um em outro parece ter contribuído para um amadurecimento da narrativa e dos recursos empregados pelo autor.

A história é rica em detalhes, nuances, na constituição dos personagens (inclusive os secundários), nos cenários e nos diálogos. O emprego de versos, epístolas, contos e histórias dentro da própria história são empregados de modo que atraia o leitor. Uma mistura entre poética e prosa, narrativas e diálogos, descrições e dissertações.

Muitos são os aforismos que Quixote e Sancho lançam ao longo de sua jornada, como quem em busca de aventura, busca compreender a si próprio e a razão da vida.

Ao leitor caberá constatar a grandeza e a representatividade do autor espanhol na literatura universal e a singularidade de seus dois personagens que há muito mexem com o imaginário. Não resta dúvidas. Dom Quixote é um dos melhores livros que li.

Nota: a imagem de Dom Quixote, de Ferracioli é meramente ilustrativa. Não faz parte do livro.



Foto: Reprodução
Sobre o autor 

Miguel de Cervantes Saavedra. Sua primeira composição literária teria sido um soneto dedicado à rainha Isabel. Apesar do gosto pelas letras tenta a sorte alistando-se numa companhia de soldados. Cervantes participou em 7 de outubro de 1571 da batalha de Lepanto, foi ferido por arcabuz e perdeu a mão esquerda. Em 1575 foi aprisionado por turcos e conduzido para Argel, onde ficou preso por cinco anos, à espera de um resgate. Nesse período começou a redigir “La Galeteia”. Com uma atriz, na Espanha, tem uma filha de nome Isabel. Em meados de 1584 se aproxima de alguns dos melhores escritores espanhóis: Gôngora, Calderón de la Barca, Quevedo, Tirso de Molina entre outros. Em 1605 publica a primeira parte de Dom Quixote. Em 1613 publica suas “Novelas Exemplares”. Em 1615 publica a segunda parte do seu livro Dom Quixote, ridicularizando uma obra falsa de Dom Quixote que foi publicada em 1614 por um certo Avellaneda. Editou o livro de poemas “Viagem do Parnaso” em 1614 e o de teatro “Oito Comédias e Entremezes” em 1615. Falece em 1616. No ano seguinte, é publicada sua última obra, o romance “Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda”. 

Ficha Técnica 
Título: O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote de La Mancha (Segundo Livro) 
Escritor: Miguel de Cervantes Saavedra 
Editora: Editora 34 
ISBN: 978-85-7326-458-6 
Edição: 2ª 
Número de Páginas: 758 
Ano: 2013 
Assunto: Romance espanhol

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