O Último Adeus - Cynthia Hand

“Nossa, eu odeio essa pausa, enquanto a pessoa que está falando procura o modo mais tranquilo de dizer  morreu, como se encontrar outra palavra deixasse a coisa menos horrorosa: termos como foi descansar, como se a morte fosse temporária; partiu ou se foi, como se fossem férias; expirou, que deveria ser um termo mais técnico, ma que mais parece que o morto é uma caixa de leite, com uma data carimbada ali, depois da qual a pessoa se torna... bom, leite azedo.”

Alexis ou Lex recebe a proposta de seu terapeuta Dave: escrever um diário sobre o que vive, como forma de expor os sentimentos que retraí. Há cerca de sete semanas o seu irmão morreu, vitimado por um suicídio. Em um Moleskyne de capa preta ela faz suas anotações e passa então a narrar a história. Fala, sobretudo, do trauma que a morte de seu irmão Tyler causa a toda família, incluindo sua mãe.

Um bilhete deixado num post-it por Ty diz: “Desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio”. Essa foi a lembrança deixada por ele.

O fato de Tyler ter tirado a própria vida deixa uma lacuna incompreensível na vida de sua irmã Lexie. Ela fala sobre tudo que viveu ao lado do irmão e, a partir de certo ponto, passa a ver ou ter a impressão de que viu Ty em corpo físico. O Ty que já havia morrido. Lexie tem para si que ele quer direcioná-la para alguma ação.

“Ás vezes acho que vejo Ty (...) Ás vezes, eu tenho a impressão de que ele está dentro de casa. E sinto que ele quer algo de mim.”

O pai de Lexie é separado de sua mãe e eles não tinham um bom relacionamento, bem como não tinham proximidade. Além do bilhete que Ty deixou, algumas fotos que tinham a figura do pai sumiram e ele deixou uma carta para Ashley, a ex-namorada. As relações que, de certo modo, se apresentam conturbadas, ficam expostas na dor que é sentida por Lexie, bem como a dor de sua mãe que ainda vive o luto pelo filho. Também pudera, haja visto que ele não morreu por uma doença ou por acidente, mas tirando a própria vida.

A proposta inicial feita pelo terapeuta de expressar os sentimentos por meio de um diário, pareceu, inicialmente, repetitiva pelo que presenciei em outras tantas publicações. No entanto, o livro surpreende, porque não é meramente a exposição dos escritos da personagem-narradora. É ela quem conta a história, indo além do que teoricamente teria escrito em seus diários de terapia. O livro, portanto, segue a narrativa com uma trama que prende a atenção do leitor.

Lidar com a morte de um ente querido todos sabemos que não é algo agradável. E na busca pela compreensão dos sentimentos que afligem Lexie, ela vai descortinando mistérios que pairam no ar e tecendo o alinhamento de relações familiares, que permeiam as lembranças. Lexie aponta para os leitores o emaranhado que é tratar de questões que lhe afligem: a perda, a superação da morte do irmão e as questões do cotidiano que vão consumindo a personagem.

Foto: Livraria Cordis























“O    Último Adeus”, de Cynthia Hand, publicado pela Darkside Books em 2016 e que tem tradução de Carolina Coelho é um livro que trata de perdas e dos questionamentos que a  perda de um ente querido lança-nos diariamente. 

A história criada pela autora é, ao mesmo tempo, misteriosa e sensível. Misteriosa na medida em que trata dos aparecimentos de um personagem morto, da sobrenaturalidade que essa aparição causa e dos pontos de mistérios que envolvem o bilhete, a carta deixada, o sumiço das fotos do pai e outras passagens que são narradas por Lexie. Sensível no  que refere-se a profundidade da relação do amor entre os irmãos, da busca pelo entendimento das diferenças familiares, da compreensão do desejo do jovem ter tirado a própria vida e do que fica para os que não foram. Logo, em alguns momentos da história o leitor vai ser provocado com arrepios e em outros tomado por emoção.

A própria autora teve um irmão que se suicidou. No entanto, convém frisar que não é uma história autobiográfica, é ficção. A obra de Cynthia, que figurou na lista de best-sellers do New York Times é um livro para encantar. E a Darkside arrasa mais uma vez no que refere-se ao trabalho gráfico, além é claro, de apresentar um ótimo texto. O toque especial do trabalho primoroso da editora fica por conta de um post-it que vem colado sobre o título do livro na capa. Um detalhe simples, mas que coloca o leitor em conexão com a trama.

Foto: Reprodução
Sobre a autora

Cynthia Hand é a autora da trilogia Sobrenatural, incluída na lista de best-sellers do New York Times. Nascida no sudeste de Idaho, ela é formada em escrita criativa na Boise State University e na Universidade de Nebraska-Lincoln. Nos últimos sete anos, lecionou redação da Pepperdine University no sul da Califórnia. Ela  e a família recentemente se mudaram de volta para Idaho, onde curtem ar fresco.

Ficha Técnica
Título: O Último Adeus
Escritor: Cynthia Hand
Editora: Darkside
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-9454-002-7
Número de Páginas: 352
Ano: 2016
Assunto: Literatura norte-americana

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