O Demonologista - Andrew Pyper

“O Demonologista”, livro de Andrew Pyper foi publicado no Brasil em 2015 pela Editora Darkside. É considerado um best-seller do The New York Times. O título, sem dúvida, causa certa angústia ao leitor. Li comentários em redes sociais, por exemplo, de terem medo e, logicamente, certo arrepio sobre a possível abordagem dada pelo livro. O tema parece mexer com o imaginário das pessoas e Andrew explorou bem certo mistério que vai se revelando no texo.

O livro inicialmente apresenta um ritmo mais lento. De certo modo parece ir preparando o espírito do leitor para o que há de vir. David Ullman é um professor e profundo conhecedor da obra de Milton (John Milton), que foi um escritor inglês do século XVII. “Paraíso Perdido” é a obra-prima de Milton e trata da expulsão de Adão e Eva e, da relação, do anjo Lúcifer. Algumas referências a Milton são utilizadas no livro de Andrew, durante a jornada empreendida por Ullman.

David se apresenta ao leitor:

“Meu nome é David Ullman. Sou professor do Departamento de Inglês da Universidade de Columbia em Manhattan, um especialista em mitologia e narrativa religiosa judaico-cristã, apesar de meu verdadeiro ganha-pão, o texto cujo estudo crítico garantiu minha posição na Ivy-League e convites para várias inutilidades acadêmicas em todo o mundo, ser Paraíso Perdido, de Milton. Anjos caídos, a tentação da serpente, Adão e Eva, pecado original.”

O professor é contratado para ir a Veneza e lá um acontecimento o aflige. Ele de certo modo percebe com o que está mexendo e o que o envolve. Tal acontecimento, que afeta sua filha Tess, o deixa incomodado. Ele tem então de partir em busca de esclarecimentos e do conhecimento sobre o que, ou quem, o está sondando. Citações à obra de Milton parecem ser uma peça fundamental para a descoberta.

“O Perseguidor”, assim chamado por Ullman, deseja um documento, que pode ser uma prova irrefutável da existência do demônio, chamado de “Inominável”. David tem sua vida tomada e cercada pela busca de esclarecimentos e o enfrentamento com esse ser oculto.

Há suspense, medo, aflições e uma dosagem obscura que vai envolvendo o leitor. A história é inteligentemente arquitetada, sem ser totalmente agressiva. O que poderia ser esperado de um livro que trataria o demônio como tema. A narrativa de Andrew Pyper, no entanto, me surpreendeu pelo aspecto sutil, mas sem perder a sombriedade, a provocação e o medo que um livro assim deveria despertar.

“Há coisas neste mundo que a maioria de nós nunca vê, acabo de falar. Nós nos treinamos para não vê-las, ou tentamos fingir que não vimos se elas ocorrem. Mas há uma razão para o fato de, não importa o quão sofisticadas ou primitivas, todas as religiões terem demônios. Algumas podem ter anjos, outras não. Um Deus, deuses, Jesus, profetas – a figura de autoridade máxima varia. Há muitos tipos diferentes de criadores. Mas o destruidor sempre toma, essencialmente, a mesma froma. O progresso do homem tem sido, desde o início, frustrado por provadores, mentirosos, corruptores. Criadores de pragas, loucura, desespero. A experiência demoníaca é a única verdadeiramente universal de todas as experiências religiosas do homem.” (Trecho de diálogo de David Ulmman, o demonogolista).

Implicitamente na história escrita por Pyper, notamos o questionamento interno e pessoal de alguém que vê sua vida tomada por algo inexplicável. E sua busca por explicação está presente nas vivências que tem. De certo modo, essa busca por explicações pauta a vida de qualquer homem. Com o personagem não é diferente. A figura que ele busca, acredito eu, que de certo modo é um pouco do seu próprio lado obscuro, que precisa ser enfrentado. Isso dá uma boa medida ao terror contido no texto.

O livro é muito interessante e fui me envolvendo na medida em que a história foi avançando. Recomendo a leitura!



Ficha Técnica
Título: O Demonologista
Escritor: Andrew Pyper
Editora: Darkside
ISBN: 978-85-66636-40-6
Edição: 1ª
Número de Páginas: 320
Ano: 2015
Assunto: Literatura americana

Quotes - Pensar Bem Nos Faz Bem (Volume 1)



Os quotes abaixo foram selecionados de citações de outros autores feitas por Mario Sergio Cortella em seu livro "Pensar Bem Nos Faz Bem - Volume 1". O livro publicado pela Editora Vozes reúne comentários do professor e filósofo feitos em programa da Rádio CBN. Trata-se de curtas reflexões sobre grandes temas.

Ciência sem consciência não passa de ruína da alma.” (François Rebelais) 
Não sacia fome quem lambe pão pintado.” (Santo Agostinho) 
Homens são como tapetes, às vezes precisam ser sacudidos.” (Provérbio Arábe) 
Um cão morre de fome ao lado de um quilo de alpiste. Um pássaro morre de fome ao lado de um quilo de ração.” (Jean-Jacques Rousseau) 
Nós somos condenados a ser livres.” (Jean-Paul Sartre) 
O horror visível tem menos poder sobre a alma do que o horror imaginado.” (Willian Shakespeare) 
Um homem nunca deve sentir vergonha em admitir que errou.” (Alexandre Pope) 
Não ter nada para fazer é a felicidade das crianças e a infelicidade dos anciãos.” (Victor Hugo) 
O dicionário é o pai dos inteligentes; os burros dispensam-no,.” (Mário da Silva Brito) 
Se você não tem dúvidas é porque está mal-informado.” (Millôr Fernandes)

Iscas de Ambrosia - Márcio Cotrim

Iscas de Ambrosia”, de Márcio Cotrim, publicado pela Editora Leitura em 2009, traz sem suas 188 páginas, 1240 frases bem humoradas sobre variados temas.

As frases reunidas no livro são de nomes conhecidos como Oscar Wilde, Woody Allen, Otto Lara Resende, Mark Twain, ou ainda de autores desconhecidos, bem como também há provérbios de diversas nações. Todos apresentam frases que de um jeito ou de outro estão mencionadas por aí e são repetidas. Frases bem humoradas.

Num segundo bloco do livro há agrupamento de citações de autores, como Nelson Rodrigues, Sérgio Porto e Millôr Fernandes.

As citações são de diversas personalidades que variam de jornalistas, escritores, políticos, poetas, artistas de diferentes esferas a pessoas que tiveram a sensibilidade de capturar a essência de fatos, coisas, circunstâncias, momentos e sentimentos.

É um livro para consultar e refletir, com humor.

Adquiri esse livro numa feira do livro. Interessante para aqueles momentos de distração.

Ficha Técnica
Título: Iscas de Ambrosia
Escritor: Márcio Cotrim
Editora: Leitura
ISBN: 978-85-7358-868-2
Edição: 1ª
Ano: 2009
Número de Páginas: 188
Assunto: Livro de Frases

Resultado - Sorteio Destura Este Diário

Olá, leitores!

Realizamos o sorteio do livro "Destrua Este Diário" - capa silver tape, de Keri Smith. 

Agradeço a todos que participaram!

A ganhadora foi Cristiane Costa (Instagram: @fairycris). Ela seguiu todos os critérios do regulamento e agora poderá se divertir destruindo este diário. A ganhadora foi comunicada via Direct pelo Instagram, onde também divulgamos a foto marcando-a, além do post aqui no blog e terá 24 horas para entrar em contato informando nome e endereço completo.

Parabéns, Cristiane! E obrigado por estar conosco no Tomo Literário.

Fiquem ligados aqui no blog! Sigam no "Participe deste site". Temos novidades por aí!


Os Goonies - James Kahn

“Os Goonies”, publicado pela Editora Darkside em 2014, do escritor James Kahn é um livro de filme criado por Steven Spielberg, e como o próprio cineasta descreve, trata-se de “um filme sobre amizade, sobre manter-se unido. O sonho de toda criança é poder estar no controle de seu próprio destino, ainda que apenas por um sábado à tarde. Não seria incrível nunca perdermos esse sonho?” Na visão do diretor de cinema aquilo que um se tornou para o outro é algo especial. Antes de falarmos do livro, objeto do post, gostaria de deixar registrado que o roteiro original do filme é de Chris Columbus.

O livro traz a história de um grupo de garotos. Na adaptação editorial o texto é narrado em primeira pessoa pelo personagem Mikey Walsh, que sofre de asma. Mas, estão lá presentes todos os outros com suas distintas personalidades e seus modos particulares de agir, tais como Bocão, Gordo, Dado, Brand, Stef e Andy.

A vivência pelas quais eles passam ao longo das  240 páginas é uma aventura. Um mapa, pistas, vários segredos para serem desvendados em busca do objetivo. Os garotos se unem para enfrentar os vilões: Fratelli e seu filho monstro que se chama Sloth. Uma forma simples, mas que tem grande efeito e que foi bem construída.

Quando o personagem-narrador conta funciona uma gambiarra para abrir a janela descreve: “Goonies gostam de coisas como essa. Eu acho que é porque nós não podemos controlar nada em nossas vidas, ou no mundo, como uma guerra nuclear ou a fome, ou os lixões tóxicos ou onde podemos estar vivendo na semana que vem ou o que vai ter para o jantar, mas podemos controlar cada detalhe de alguma engenhoca que vamos construir ou de uma piada que vamos dizer ou cada guloseima entre as refeições que vamos atacar.”

Essa peraltice dos garotos mantém neles o espírito de aventura e o laço de amizade, mesmo quando um tira sarro do outro durante a jornada que empreendem juntos. Demonstra bem a maneira aventureira com que vivem a história. Spielberg tem razão: eles querem controlar o seu destino e arrumam uma maneira própria de fazê-lo.

Por basear-se num livro, a leitura deixa aquele gosto de voltar a assistir o filme e atentar-se a detalhes que por vezes criamos em nossa mente na leitura, mas que pode ter escapado na primeira vez que assistimos. Uma aventura juvenil agradável e que parece permanecer atual, embora tenha sido originalmente da década de 1980.

A leitura é válida por vários motivos: pela primorosa edição da Editora Darkside (o meu livro faz parte de um box que veio ainda com os livros dos filmes “Psicose” e “A Volta Dos Mortos Vivos”). Vale também pela história de aventura que tem um ritmo frenético e jovem. Vale pelo despertar da lembrança do filme que foi assistido há muito tempo (no meu caso em específico nem me lembro quando).

Leitura recomendada!

Ficha Técnica
Título: Os Goonies
Escritor: James Kahn
Editora: Darkside
ISBN: 978-85-66636-09-3
Edição: 1ª
Ano: 2012
Número de Páginas: 240
Assunto: Literatura infanto-juvenil

Quotes - A Menina Mais Fria de Coldtown



Os quotes do post de hoje foram extraídos do livro de Holly Black, "A Menina Mais Fria de Coldtown", publicado pela Editora Novo Conceito em 2014. O livro apresenta na abertura de cada capítulo uma citação de um grande pensador e/ou escritor. O tema abordado é a morte. Recentemente publicamos a resenha do livro aqui no blog e separei algumas das citações que anotei. Veja abaixo: 
A morte é a queda da flor, para que o fruto possa avolumar-se.” (Henry Ward Beecher)
Do lado positivo, a morte é uma das poucas coisas que podem ser feitas com facilidade e tão somente se deitando.” (Woody Allen) 
Morrer é aterrissar em alguma praia distante.” (John Dryden) 
Enquanto eu achava que estava aprendendo a viver, eu vinha aprendendo a morrer.” (Leonardo Da Vinci) 
O homem morre de frio, não de escuridão.” (Miguel de Unamuro) 
Morrer é uma noite selvagem e uma nova estrada.” (Emily Dickinson) 
Não diga que nenhum homem é feliz até que ele esteja morto.” (Ésquilo)

Pensar Bem Nos Faz Bem! - Mario Sergio Cortella

Os livros “Pensar Bem Nos Faz Bem! – Volume 1 e Volume 2”, publicados pela Editora Vozes em 2014, em sua 4ª e 3ª edição respectivamente, reúnem textos compilados a partir de comentários feitos por Mario Sergio Cortella em coluna na Academia CBN. Assim como a coluna que é apresentada no cotidiano, os textos nos livros não foram categorizados.

Os textos contém o tom filosófico, vez que Cortella é um grande filósofo brasileiro, e nos aponta para reflexões que variam da própria Filosofia a religião, de ciência a educação e passa ainda por outros temas que circunstanciam a nossa vida: literatura, conhecimento, autoconhecimento, pensamento crítico, civilidade, entre outros.

Os comentários de Cortella possibilitam ao leitor uma reflexão sobre si próprio ou sobre as circunstâncias da vida ou, no mínimo, se tornam uma provocação sobre o assunto abordado. Cada texto toma uma página do livro, se apresentando como uma pílula de conhecimento e sabedoria.

Como temos dois volumes, e são livros curtos (142 páginas o volume 1 e 141 páginas o volume dois), os li num final de semana e resolvi fazer a resenha de maneira unificada. São livros independentes, mas montados sobre a mesma ótica.

Os volumes e mesmo as páginas em cada um dos livros não precisam ser lidas na sequência, embora eu tenha feito assim. Há várias citações de grandes autores compondo e clarificando o entendimento do texto, além de muita definição e esclarecimentos sobre termos e/ou fatos.

Já conhecia o trabalho de Cortella, por meio de uma leitura que tive de fazer na faculdade, e me encantei pela maneira como ele expõe as ideias e pela proximidade que é capaz de criar com o leitor.  É um livro de fácil compreensão e de textos simples. Nada daqueles termos redundantes que saem do nada e levam a lugar nenhum para parece que apresenta filosofia. “Pensar Bem Nos Faz Bem!” tem a essência do autor e do título. Os dois volumes viraram livros de consultas para reflexão.

Ficha Técnica
Título: Pensar Bem Nos Faz Bem (Volume 1 e 2)
Escritor: Mario Sergio Cortella
Editora: Vozes
ISBN: 978-85-326-2655-2
Edição: 4ª (volume 1) e 3ª (volume 2)
Número de Páginas: 142 e 141
Ano: 2014
Assunto: Filosofia

A Menina Mais Fria de Coldtown - Holly Black

“Todas as pessoas infectadas e os vampiros capturados eram enviados a Coldtowns, e humanos doentes, tristes ou iludidos iam para as Coldtowns voluntariamente. Esses lugares supostamente deveriam ser uma festa constante, de livro acesso pelo preço de sangue. Porém, uma vez que as pessoas estivessem lá dentro, humanos – até mesmo crianças, até mesmo bebês nascidos em Coldtowns – não tinham permissão para sair de lá.”

O trecho acima explica o que são as Coldtowns, lugares em que os vampiros são isolados dos humanos. E uma Coldtown ganha notoriedade na história, em função da jornada empreendida por Tana. Depois de uma festa, ela vê seu amigo e affair Aidan ter sido Resfriado. Termo utilizado para definir quem foi mordido por um vampiro. No caso do amigo de Tana, o causador foi Gavriel.

Com os dois, Tana parte para uma Coldtwon, onde o amigo poderá permanecer isolado e, quem sabe, buscar alguma cura. No entanto, não é um caminho muito fácil entrar numa Coldtown. E, apesar dos riscos que corria, Tana decidiu seguir adiante nessa sombria viagem.

O ambiente de mistério, maldições, terror, aprisionamento e isolamento é criado na história que se desenrola. Sangrento seria uma ótimo adjetivo para definir o livro de Holly, que foi publicado no Brasil pela Editora Novo Conceito em 2014. O livro da escritora foi premiado pela Young Adult Library Services Association. O texto foi eleito como o melhor livro de ficção.

E de fato o livro é brilhante. Acredito que aqueles que tem uma admiração por livros de vampiros, gostarão ainda mais. É uma história sombria do modo como deve ser. Holly Black tem uma grande qualidade de descrever detalhes que fazem o leitor se sentir participando da cena, o que torna a leitura ainda mais agradável. Cada capítulo do livro é aberto com uma citação de um grande escritor ou pensador tendo como tema central a morte.

O livro é surpreendente, sombrio, tenebroso e agoniante, com uma trama que nos prende do início ao fim. Quando via as fotos postadas nas redes sociais e comentários como: "quero ler", "o livro é sensacional", "preciso urgentemente", me fez pensar que valeria a pena adquiri-lo. O que concluo? Valeu. Não me arrependi. E recomendo!
Caixa e encarte que acompanham o livro (venda como kit adquirido na Amazon)

Ficha Técnica
Título: A Menina Mais Fria de Coldtown
Escritor: Holly Black
Editora: Novo Conceito
ISBN: 978-85-8163-403-6
Edição: 1ª
Número de Páginas: 384
Ano: 2014
Assunto: Ficção inglesa

Estantes


Foto: Instagram @estantedapolly
Foi a frase do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade que me inspirou a fazer um post sobre estantes. A estante é para o leitor devotado quase como um altar, um lugar sagrado. É ali que são guardados, acarinhados, expostos e exaltados os livros que o leitor adquire, com o propósito de devorar suas histórias (sejam elas ficcionais ou não-ficcionais).

Esse móvel é aquele local particular, sobre a qual o leitor por vezes derrama seu ciúme, mas ao mesmo tempo quer mostrar para os outros. O leitor voraz quer que todos saibam que a sua estante está crescendo, está ficando cada vez mais recheada de livros e, lá no fundo, talvez queira chegar ao estágio em que tenha que comprar mais estantes (e aí criar uma pequena desculpa de comprar mais livros para preenchê-las). Porque estas, as estantes cheias, já não suportam mais o peso e a quantidade de livros que preenchem os espaços outrora vazios. 

"Não tenho mais prateleiras para colocar os meus livros", "tenho tantos livros que não tem mais lugar para colocá-los", "tem muito livro fora da estante", "oh, os meus livros precisam ser colocados numa estante"... Não é assim que falamos, leitores?

Foto: Instagram @cirocireca
Não importa se uma estante pequena, uma estante grande, ou uma estante imensa. Não importa que sejam várias estantes em diferentes cômodos, várias num mesmo ambiente, uma pequena prateleira ou uma estante que nos deixa boquiabertos, como a das bibliotecas clássicas. Seja uma estante herdada de um parente, uma nova comprada sob medida, uma adquirida com designer inovador, algumas prateleiras ou com madeira reciclada, ou até mesmo uma estante improvisada. Uma estante branca, de mogno, de jacarandá, não importa. A estante é um refúgio do livro fechado, que fica ali, silencioso, mas gritando, gritando, gritando para ser lido. E, depois de lido, fica ali, esperando que outra vez, o mesmo ou outro leitor, venha buscá-lo, admirá-lo, lê-lo.

A estante talvez seja o local físico no qual são guardados os sonhos, as fantasias, as milhares de palavras que nos fizeram viajar por um mundo fantástico, por uma história complexa, por uma poesia, por uma biografia de um grande nome ou nem tanto, por um livro de título curto, por um livro de título incompreensível no primeiro momento, por escritores nacionais e estrangeiros. É na estante que ficam nossas lembranças? Guardamos a fantasia na mente, mas deixamos na estante a palavra repousada que deu origem a mágica do encantamento de tantos personagens, lugares, situações...

Foto: Instagram @menosfacemaisbook
Os livros, nas estantes, podem ser colocados em ordem alfabética (por título ou escritor), por cores, por estilo, por mero acaso. Arrumados ou banguçados, misturados com enfeites ou objetos que nos remetem ao universo lido ou que acrescentamos para decorar. Em pé ou deitados, com ou sem aparadores, os livros ali esperam, silenciosos, para despejarem sobre nós o muito que guardam em si.

A estante é sim o altar, a morada, o cofre, o refúgio, o lugar em que guardamos nossos livros. Livros esses que carregam conhecimentos, aventuras, inspirações, divagações e fazem a nossa alegria.

Livro, tenha a bondade, venha preencher os espaços vazios de nossas estantes.



Nota de Agradecimento

Leitores convidados do Instagram disponibilizaram suas fotos para ilustrar o post. Na legenda da foto há o perfil do autor. Agradeço a todos pela colaboração em compartilhar com os leitores e visitantes do blog suas estantes.


Foto: Instagram @kaiobmachado
Foto: Instagram @akarin7
   
Foto: Instagram @vanessatanios

Ratos - Gordon Reece

"Ratos" é o primeiro romance de Gordon Reece, publicado pela Editora Intrínseca em 2011 (240 páginas). O escritor já havia publicado Graphic Novels e diversos livros infantis ilustrados. Um ponto central do livro é a fragilidade emocionante das personagens que causam piedade e raiva, fraqueza e força e nos despertam sentimentos controversos, assim como os que elas próprias vivenciam.

Uma adolescente que se vê acuada no mundo. Na escola ela sofre bullyng por sua aparência e pelo fato de as pessoas desacreditarem de sua capacidade. Assim, ela se sente um rato. Às vésperas de completar dezesseis anos de idade um episódio, provocado por outras adolescentes, causa na jovem um ferimento mais profundo que o ferimento externo (queimaduras no rosto). As queimaduras são mais profundas do que a marca aparente no rosto, estão na alma.

Sempre isolada, retraída, fechada em si, com baixa auto-estima, procurando se esconder, como os ratos fazem, ela muda com sua mãe para uma nova casa, chamada de Chalé Madressilva. A mãe da jovem tem o mesmo tipo de comportamento, ou seja, prefere se esconder das pessoas, do mundo. É o modo como elas agem diante dos fatos  e da vida que faz com que Shelley a personagem-narradora as comparem com os roedores.

“Sei que sou um rato e que estou me escondendo de todos em meu ninho aconchegante, atrás dessas paredes, mas minha vida de rato é repleta de todas as coisas boas que existem: arte, música, literatura... amor.” Shelley vê nos livros um refúgio que parece colocá-la no mundo, que ela rechaça, do qual se esconde.

Uma ação inesperada na residência faz a vida da jovem e de sua mãe sofrer uma reviravolta. Um assaltante invade o local e, bêbado, acaba se tornando vítima das duas, mãe e filha, que expandem a relação que tem para a de cúmplices.

Elas passam, juntas, a arquitetar maneiras de se esquivar de acusação de assassinato do bandido que invadira a casa. Não querem ser descobertas e, para isso, são capazes de cometer atos desmedidos, que vão desde mentiras até a enterrar o corpo no jardim. Ao mesmo tempo que vivem na casa, com um corpo enterrado, elas se unem, se divertem, riem de acontecimentos e conversam como amigas. A mãe pensa, Shelley ajuda a executar.

Embora seja cruel, violento, criminoso e moralmente recriminável, é no fato caótico da morte do ladrão e de outros episódios que circunstanciam o crime que a jovem acuada vai se descobrindo. E o fato de sentir-se como rato, pode ir para um segundo plano. A adolescente sai mais confiante em si e deixa de ser aquela menina que sofria constrangimentos na escola.

"E, naquele momento, senti uma estranha calma me dominar, a calma que vem com a resignação diante do momento final."

É um bom livro, que me surpreendeu. Quando o vi, por diversas vezes, num preço baixíssimo em vários sites, duvidava de sua qualidade. No entanto, tenho que me redimir, pois é uma ótima história, apresentada sob uma perspectiva bastante interessante. Há um certo jogo psicológico do autor com nós, leitores. A ambiguidade de sentimentos que a personagem tem e que provoca fixa nossa atenção. 

Ficha Técnica
Título: Ratos
Escritor: Gordon Reece
Editora: Intrínseca
ISBN: 978-85-8057-070-0
Edição: 1ª
Número de Páginas: 240
Ano: 2011
Assunto: Ficção inglesa

Quotes Para Refletir

 
Onde nos enxergamos na escala social parece determinar quanta atenção prestamos: mais vigilantes quando nos sentimos subordinados, menos quando nos sentimos superiores. A conclusão: quanto mais você se importa com alguma coisa, mais atenção presta – e quando mais atenção presta, mais você se importa. A atenção está entrelaçada com o amor.” (Foco – Daniel Goleman)

Os sentimentos da juventude ainda não foram manipulados. Neles não existe bondade, nem maldade, eles pensam de acordo com a natureza. Quando uma criança é bem-criada, ela não toma decisões erradas.” (Ele Está de Volta – Timur Vermes)

Desista, mas desista aos poucos para dar tempo de não desistir.” (Eu Me Chamo Antônio – Pedro Gabriel)

Porque as palavras são testemunhas da vida: elas registram o que aconteceu e tornam tudo verdade. Palavras criam histórias que se transformam em histórias inesquecíveis.” (O Ano Da Leitura Mágica – Nina Sankovitch)

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo.” (Clarice na Cabeceira – Clarice Lispector)

A verdade é bela, não importa qual seja. Mesmo que seja assustadora ou má. É a beleza simplesmente porque é verdade. E a verdade é radiante. A verdade nos faz ser nós mesmos.” (Carta de Amor aos Mortos – Ava Dellaira)

A felicidade é baseada numa escolha, muito mais que em circunstâncias.” (Antes de Partir – Bronnie Ware)

Os olhos dos adultos, havendo se enchido de saber, e havendo, portanto, perdido a capacidade de ver das crianças, olham sem nada ver (daí o seu tédio crônico) e ficam procurando cura para sua monotonia de ver em experiências místicas esquisitas, em visões de outros mundos, ou em experiências psicodélicas multicoloridas.” (A Grande Arte de Ser Feliz – Rubem Alves)

Quando a situação for indefinida, não faça nada, absolutamente nada até conseguir avaliar melhor o quadro. Contenha-se.” (A Arte de Pensar Claramente – Rolf Dobelli)

É gente que passa o tempo todo contando os minutos para acabar o expediente, ansiando por dias de férias e calculando os anos que faltam para chegar à aposentadoria. Essas pessoas passam a vida profissional assistindo, perplexas à promoção de colegas que ‘surgem do nada’.” (A Estratégia do Olho de Tigre – Renato Grinberg)

Trash - Andy Mulligan

Raphael Fernández se define como um “garoto do lixão”. É vasculhando o lixo de um aterro em Behala e se deparando, inclusive, com dejetos humanos, dada a precariedade do saneamento básico da cidade, que ele e outros garotos buscam coisas que lhe garantam a sobrevivência. Plástico, borracha ou algum objeto de valor pode ajudar.

Com quatorze anos de idade, Raphael e seu amigo Gardo, da mesma idade, vasculham o lixo. Um dia o garoto do lixão imaginou que pudesse encontrar algo que mudaria sua vida, e encontrou. Um objeto achado em meio ao lixo vindo de uma região rica da cidade, muda  a sua história.

“Caiu na minha mão: uma pequena bolsa de couro, bem fechada e coberta de pó de café. Ao abrir a bolsa, encontrei uma carteira. Dentro dela, um mapa dobrado, e, dentro do mapa, uma chave.”

A polícia aparece em busca dessa bolsa e os meninos, junto com Rato (outro garoto que vive do lixo) saem em busca de desvendar o motivo pelo qual há pessoas interessadas em encontrar a tal bolsa. Números anotados num papel, o mapa, o nome de José Angélico (identificado na identidade encontrada na carteira), podem ajudar a desvendar o mistério.

No livro Trash, de Andy Mulligan, publicado pela Editora Cosac Naify em 2013 e que inspirou o filme de mesmo nome que teve no elenco Wagner Moura, Selton Mello e Martin Sheen são os personagens que narram a trama. Cada capítulo é contado por um deles, que se revezam ao longo das 224 páginas. Para dar certa caracterização a fonte do texto alterna-se. Não seria necessário, haja vista que no início do capítulo o próprio personagem-narrador se apresenta, como no trecho “Oi, ainda é o Raphael”.
O filme inspirado no livro, do mesmo
diretor de Billy Elliot

O livro é instigante e de leitura rápida. Não é difícil se encantar pelo jeito dos personagens centrais, de suas agruras juvenis e das aventuras em que se metem, e o que fazem para se desvencilhar dos obstáculos que surgem.

O lixão pode ser visto como uma crítica à pobreza e ao descaso, dado que Behala é uma cidade deficiente em saneamento e rica em miséria. Além disso há um personagem que é um senador que rouba o dinheiro público. Olha a ficção imitando a vida. Embora não se fixe numa crítica contundente e marcada, ela está lá, implícita, correndo na história dos meninos.

É um bom livro. Recomendo!

Ficha Técnica
Título: Trash
Escritor: Andy Mulligan
Editora: Cosac Naify
ISBN: 978-85-405-0285-7
Edição: 1ª
Número de Páginas: 224
Ano: 2013
Assunto: Literatura juvenil

Coisas Frágeis - Neil Gaiman

“Acho... que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, a uma vida gasta evitando a dúvida moral. As palavras surgiram num sonho e eu as escrevi quando acordei, sem saber ao certo o que significavam ou ao quem se aplicavam.”

É com estas palavras, na abertura do livro, que Neil Gaiman explica sobre seu projeto de reunir contos de fantasia. É em “Coisas Frágeis” que recebeu o nome após aquelas palavras sonhadas e anotadas, publicado em 2010 com 206 páginas pela Editora Conrad que são apresentados os nove contos reunidos pelo escritor.

Há um conto que foi escrito a partir de uma proposta feita pra Gaiman, com o propósito de que juntasse na mesma história Sherlock Holmes e H.P. Lovecraft. Outro conto demonstra os meses contando histórias, intitulado “É a vez de Outubro”. No livro há ainda um conto que começa do fim, contando a história da Senhorita Finch e outros textos.

“Coisas Frágeis” reúne bons contos selecionados pelo autor, incluindo contos premiados. Da fantasia arquitetada por Neil Gaiman surgem personagens intrigantes e fantásticos. Alguns com vida dupla, outros com dualidade de ações, outros com características inanimadas, outros que parecem monstros e personagens humanos.

Os estilos textuais são diversificados e demonstram a versatilidade de um autor maduro e conhecedor da arte de escrever.



Ficha Técnica
Título: Coisas Frágeis
Escritor: Neil Gaiman
Editora: Conrad
ISBN: 978-85-7616-404-3
Edição: 2ª
Número de Páginas: 206
Ano: 2010
Assunto: Contos ingleses

Tempo de Espalhar Pedras - Estevão Azevedo

“Ninguém ostenta um fruto, por mais doce que seja. Quem o faz, por pouco tempo se apraz: não tarda passa do ponto, apodrece.”

Homens que cavam e peneiram a terra a procura não só de diamantes, mas de desejos e sonhos. As tão sonhadas pedras preciosas que geram ganância e esperança não mais existe no solo maltratado, escavado, judiado pela força do homem. Mesmo rareada, a busca continua e Silvério se apega a sua fé.

Nesse garimpo, de lugar não determinado pelo autor da história, eles (os garimpeiros) se vêem as voltas com um coronel que explora o trabalho árduo a que são submetidos. Mesmo diante de muitas dificuldades, as pessoas buscam de um modo ou de outro manter suas vidas. A busca de um equilíbrio mesmo numa situação adversa que a todo tempo parece desestabilizar a balança da vida.

Esse indivíduos perdem sua individualidade quando estão sob o poderio do coronel. Ninguém ousa resistir a uma ordem desse homem que determina inclusive o fim da vida de muitos.

“E assim a vida prosseguia, o trabalho precedendo a farra, o estrago a sucedendo, e um novo dia de trabalho reinaugurando o ciclo. Não tradou para se darem conta de que a prodigalidade mais que nunca poderia lhes custar o pescoço, e daí por diante começaram a racionar as farras e adequá-las ao padrão da vila – a pobreza como parâmetro e a riqueza como exceção.”

No livro do escritor Estevão Azevedo, nascido em Natal, publicado pela Editora Cosac Naify em 2014 (288 páginas), os personagens vivem histórias de amor, amizade, desejos, violência, morte e fé. Cada um a sua maneira.

Joca, Bezerra, Ximena, Silvério, Rodrigo são brasileiros. Há esperança onde parece não haver, amor onde parece ser construído ódio, há morte e miséria quando a riqueza parece chegar, há desolação quando o sonho se esvai por água abaixo (literalmente, com a pedra na mão), há pobreza ao lado de quem esbanja poder.

A narrativa de Estevão é bem construída, de uma linguagem bem colocada, que tornam a história grandiosa em sua simplicidade. E mesmo com os altos e baixos, existentes na vida de qualquer pessoa real, os personagens também são revestidos de suas mazelas, seua conflitos e suas buscas singulares. A história se regionaliza na leitura, mas também se torna atemporal e sem fronteiras. As tramas vividas são cheias de detalhes e pormenores que se cruzam. Um livro para se espalhar.

Ficha Técnica
Título: Tempo de Espalhar Pedras
Escritor: Estevão Azevedo
Editora: Cosac Naify
ISBN: 978-85-405-0759-3
Edição: 1ª
Número de Páginas: 288
Ano: 2014
Assunto: Ficção brasileira

Clarice na Cabeceira - Clarice Lispector

“Clarice na Cabeceira” traz vinte crônicas da escritora Clarice Lispector. Cada uma das crônicas foi selecionada por um leito afeito a Clarice e, esses leitores fazem uma apresentação da crônica selecionada. Caetano Veloso, Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles, Marília Pêra e Thalita Rebouças são cinco dos leitores que selecionaram os textos da escritora.

O lado cronista de Clarice “surgiu pela primeira vez na revista Senhor” em 1962. E sobre crônicas a escritora escreveu: “Crônica é um relato? É uma conversa? É um resumo de estado de espírito? Não sei.”

Nos textos que tanto despertam leitores e a curiosidade em ler, Clarice se mostra capaz de falar de uma infinidade de coisas. Fala sobre a apreciação do mar, sobre uma caneta de outro que leva a descobertas e reflexões mais profundas de um relacionamento entre mãe e filhos, sobre futebol, sobre o ato de escrever, sobre a família, sobre ser um bobo, sobre uma corrida de táxi, sobre fatos e atos da vida.

“O mundo parece chato, mas eu sei que não é.”

Pelos textos reunidos na edição publicada pela Editora Rocco em 2010, pelos romances ou pelas frases que são extraídas de sua obra e publicadas na internet ou em exemplares de reunião de pensamentos, Clarice continua presente. Sinto em Clarice Lispector uma escritora que é capaz de aguçar a vontade de ler e, ainda, a vontade de escrever. A leveza profunda de suas observações tocaram, tocam e tocarão leitores de todas as idades e de diferentes formas.

“... Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.”

As crônicas que foram selecionadas fazem parte de dois livros da escritora: “Para não esquecer” (1978) e “A descoberta do mundo” (1984).

Livro para ter na cabeceira e se deleitar com os textos de Clarice.

Ficha Técnica
Título: Clarice na Cabeceira
Escritor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
ISBN: 978-85-325-2606-9
Edição: 1ª
Número de Páginas: 176
Ano: 2010
Assunto: Crônica brasileira

Estante do Leitor (Convidado Universo_Figurado)

O convidado da Estante do Leitor é @universo_figurado (perfil do Instagram), da cidade de Governador Valadares - MG. Ele compartilhou a foto de sua estante e fez indicações para os leitores e visitantes do blog. 


Siga o leitor no Instagram: @universo_figurado

Vamos às indicações? Boa leitura!






A Trilogia dos Espinhos, de Mark Lawrence

Livros muito bem escritos que te prendem do início ao fim. O protagonista é um anti-herói e os livros são diferentes de tudo que já li. Quase ninguém conhece, mas merece destaque.”










Starters, de Lissa Price

Uma distopia super original e criativa, onde uma menina tem que conseguir dinheiro para salvar o irmão e, para isso, ela vende seu corpo. Vende seu corpo literalmente, para outras pessoas usarem. Eles trocam de mente. Muito incrível.”









God of War, de Matthew Stover e Robert E. Vardeman


Pra quem gosta de jogos os romances não podem faltar na coleção. Quem não conhece, não vai sair prejudicado, pois a história é muito bem explicada do início ao fim, entendendo mesmo sem ter jogado. Ótima oportunidade para aprender mais sobre mitologia grega numa aventura épica cheia de ação com o carisma de Kratos, o protagonista.”